quarta-feira, 23 de setembro de 2009

domingo, 13 de setembro de 2009

AS FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DA SOCIEDADE AFRICANA

I. Introdução

Algumas sociedades africanas formaram grandes reinos, como o Egito, o Mali, Songai, Oiô, Axante e Daomé. Outras eram agrupamentos muito pequenos de pessoas que caçavam e coletavam o que a natureza oferecia ou plantavam o suficiente para o sustento da família e do grupo. Mas todas, das mais simples às mais complexas, se organizavam a partir da fidelidade ao chefe e das relações de parentesco. O chefe da família, cercado de seus dependentes e agregados, era o núcleo básico de organização na África. Assim, todos ficavam unidos pela autoridade de um dos membros do grupo, geralmente mais velho e que tinha dado mostras ao longo da vida da sua capacidade de liderança, de fazer justiça, de manter a harmonia na vida de todo dia.

Nas aldeias, que eram a forma mais comum de os grupos se organizarem, havia algumas famílias, cada uma com seu chefe, sendo todos subordinados ao chefe da aldeia. Ele atribuía ao castigo às pessoas que não seguiam as normas do grupo, distribuía a terra pelas diversas famílias, liderava os guerreiros quando era preciso garantir a segurança. O chefe era o responsável pelo bem-estar de todos os que viviam na sua aldeia, e para isso recebia parte do que as pessoas produziam, fosse na agricultura, na criação de animais, na caça, na pesca ou na coleta. As suas decisões eram tomadas em colaboração com outros líderes da aldeia, chefes das várias famílias que dela faziam parte.

Havia assim um conselho que ajudava o chefe a governar, no qual os responsáveis pelos assuntos ligados ao sobrenatural eram muito importantes. Se a forma básica de organização dos grupos girava em torno das relações de parentesco, a orientação de tudo na vida era dada pelo contato com o sobrenatural; com os espíritos da natureza, com antepassados mortos e heróis míticos, que muitos grupos consideravam os fundadores de suas sociedades. Todo conhecimento dos homens vinha dos mais velhos e dos ancestrais, que mesmo depois de mortos continuavam influenciando a vida.

Várias aldeias podiam estar articuladas umas com as outras, formando uma confederação de aldeias, que prestava obediência a um conselho de chefes. Nesses casos, cada uma delas obedecia ao seu chefe e decidia sobre seus assuntos, mas em certas situações aceitava a liderança do conselho, que tomava decisões relativas ao conjunto de aldeias e não a uma ou outra em particular. Casamentos entre pessoas de diferentes famílias e trocas de produtos eram os principais motivos que faziam que várias aldeias mantivessem contato. As confederações eram formas de organização social e política mais amplas do que as aldeias, que envolviam mais pessoas, mas nas quais não havia um chefe com autoridade sobre todos os outros, pois as decisões eram tomadas por representantes do conjunto de aldeias que participavam desse sistema.

De uma sociedade com uma capital, na qual morava um chefe maior, com autoridade sobre todos os outros chefes maior, dizemos que era um reino. Nele, as aldeias e grupos de várias aldeias formavam partes de um conjunto maior. As formas de administrar a justiça, o comércio, o excedente produzido pela sociedade, a defesa, a força militar, a expansão territorial, a distribuição do poder eram mais complexas do que nas aldeias e confederações de aldeias. Nas capitais dos reinos havia concentração de riqueza e poder, de gente, de oferta de alimentos e serviços, de possibilidades de troca e de convivência de grupos diferentes. Os reinos africanos tiveram tamanhos variados, mas geralmente eram pequenos, existindo poucos com dimensões maiores.

Além das aldeias, das confederações, dos reinos e dos grupos nômades (que podiam tanto ser pastores do deserto como coletores e caçadores das florestas), havia sociedades organizadas em cidades, mas que não chegavam a formar um reino. Essas cidades geralmente eram cercadas, fosse paliçadas, fosse de muros feitos de terra. Também eram centros de comércio, onde diferentes rotas se encontravam. Por trás dos muros funcionavam os mercados, moravam os comerciantes e os vários chefes, que tinham diferentes atribuições e viviam em torno do rei, Este morava em construções maiores que todas as outras e com decoração especial, cercado de suas mulheres (praticavam a poligamia). Dependentes, funcionários, colaboradores e soldados. Artesãos se agrupavam conforme suas atividades: os que fiavam, tingiam e teciam o algodão e a lã, os que fundiam o ferro, faziam armas e utensílios de trabalho, os que faziam jóias, potes de cerâmica, esteiras de palha, bolsas de couro e arreios. Nos arredores das cidades viviam agricultores e também os que estavam de passagem.

II. Os reinos do Sudão Ocidental

Antes de os europeus tomarem conhecimento da África Subsaariana, ou África Negra, como também se diz, existiram nela algumas sociedades que merecem ser lembradas. As principais se localizavam na região que chamamos de dela interior do rio Níger. Como se sabe, ali o sal do deserto era trocado pelo ouro que vinha do sul, ambas mercadorias muito valiosas. Os azenegues e tuaregues armavam seus acampamentos nas áreas mais férteis próximas aos rios; deixavam seus animais descansar e armazenar novas energias; teciam seus vínculos com os povos que moravam naquelas paragens e comerciavam. Eram os intermediários entre Mediterrâneo e o Sael. Em torno de seus acampamentos temporários formaram-se cidades, e algumas, como Tombuctu, têm hoje mais de mil anos de existência.

As cidades ficavam em lugares onde as trocas se concentravam. Agricultores e pastores se instalavam perto desses mercados e abasteciam de alimentos os grupos nômades e comerciantes. Estes traziam produtos de outros lugares: do norte vinham sal, tecidos, contas, utensílios e armas de metal. Do sul vinham ouro, noz-de-cola, marfim, pelos, resinas, corantes, essências, que eram levados para o norte pelos comerciantes fulas, mandingas e hauçás. Estes eram guiados por tuaregues e outros povos do deserto que se islamizaram a partir da expansão árabe do século VII e difundiram o islã em todo o Sudão.

A cidade, ao abrigar uma população dedicada a atividades diversas e com interesses variados, precisou de sistemas de governo mais complexos. Na maior parte das vezes havia centralização do poder em torno de um líder e seu corpo de auxiliares. Muito do sucesso de uma cidade ou de um reino podia estar ligado à ação de determinado governante, que expandia limites, acumulava riquezas e ampliava a sua influência e ampliava a sua influência sobre povos vizinhos.

O primeiro império da África subsaariana sobre o qual se tem notícias mais precisas é o Mali. Nele, Tombuctu, Jené e Gaô foram importantes cidades, centros de troca e de concentração de pessoas graças à rede de rios que fertilizava as terras e facilitava o transporte na região da curva do Níger. Vestígios arqueológicos apontam que desde cerca dos anos 800 da nossa era havia ali cidades e forma de comércio.

Antes do Mali, Gana, ao norte do rio Senegal, foi um reino poderoso, no qual se davam os negócios entre os comerciantes que traziam o ouro do sul e os caravaneiros que iam para os portos do norte da África. Sua posição de destaque durou mais ou menos do ano 500 ao 1000, quando o Mali começou a se fortalecer com a mudança das rotas do deserto mais para o leste, em direção ao delta interior do Níger. Em torno de 1230 Sundiata, mansa (como era chamado o chefe supremo) do Mali, estendeu seu poderio em direção a leste e oeste, tornando o estado que comandava um verdadeiro império, com soberania sobre outros povos e vastas regiões.

A população do Mali era composta de várias etnias, sendo os mandingas a principal delas. No século XIV o império era composto de povos da região do rio Senegal, como jalofos, sereres, tucolores e fulas; das cabeceiras do Níger, como bombaras e soninquês; a leste subjugou os songais e aproximou-se da terra dos hauçás. Além disso, manteve relações com os povos da floresta, por meio do comércio feito pelos mercadores uângaras, ou diulas, que viajavam até a terra dos aças e de povos mais ao norte influenciados pelos mandingas, de onde vinha uma das mais importantes mercadorias no comércio do Saara: a noz-de-cola.

No fim do século XV, Songai passou a ser o principal estado do médio Níger. O império floresceu sob a liderança de um ásquia (como era chamado o chefe supremo) que por volta de 1470 conquistou Tombuctu e, depois, Jené. Nessa época, a maioria do outro começou a vir de minas da região do rio Volta, em terras dos aças. Mas desde o fim do século XV ele não era mais transportado apenas pelas rotas do Níger e do deserto. Os portugueses haviam chegado à costa atlântica e comerciavam o ouro a partir de seus barcos e de entrepostos que iam criando.

Songai, que se expandiu para leste e dominou algumas cidades hauçás, se manteve como o estado mais forte do Sudão ocidental até 1591, quando foi invadido por exércitos vindos do Marrocos. O que havia de mais refinado nessa região, construído ao longo de séculos, foi sufocado pelos invasores. Mesquitas, escolas e bibliotecas foram destruídas, os sábios foram deportados, as estruturas de mando e de justiça foram desmanteladas. A urbanização e o comércio cederam espaço para as atividades agrícolas e de pastoreio, as religiões tradicionais voltaram a florescer e o islã, que se alimentava das caravanas que atravessavam o deserto levando e trazendo, além de mercadorias, peregrinos e especialistas em teologia (mulás), passou para o segundo plano.

III. Os Reinos Iorubás e Daomeanos

Quando não existem textos escritos que dêem informações detalhadas de como viviam os povos do passado, são os vestígios arqueológicos e as histórias contadas pelos mais velhos, principalmente na forma de mitos, que nos falam de sociedades, como algumas que existiram nas regiões do rio Volta e do baixo Níger. Elas eram menos imponentes do que as que contaram com centros como Tombuctu, Gaô e Jené, mas também tinha sua grandeza.

Vestígios de caminhos calçados e muros de pedra dão uma noção de como eram os centros dessas civilizações. Alguns eram cercados de muros de pedra e deviam abrigar agricultores, artesãos, grupos de famílias submetidas a um chefe e seu conselho. Comerciantes circulavam em canoas pelos rios, e assim os produtos da floresta chegavam, depois de passarem por muitas mãos, aos mercados ligados às cidades do médio Níger e ao comércio saariano.

Alguns dos vestígios arqueológicos mais importantes dessa região estão em Ifé, terra de iorubas e ponto de ligação da zona da floresta com a bacia do rio Níger. Conforme relatos orais, um líder divinizado chamado Odudua foi o responsável pela prosperidade do Ilê Ifé, cidade onde vigorou um sistema político-religioso adotado depois por várias outras cidades e reinos dessa área. Acredita-se que Odudua tenha vivido em algum momento entre os séculos VIII e XIII de nossa era, mas a veracidade de sua existência não pode ser confirmada.

Em Ilê Ifé foi criada uma forma de monarquia divina, dirigida pelo oni, representante da divindade e também governante da comunidade, composta pelas várias aldeias, cada qual com seu chefe, que cuidava dos seus membros mas prestava obediência ao oni. Esse modelo de organização se espalhou por várias cidades da região habitada por povos iorubas, compreendido pelos rios Volta e Níger, e também entre os edos, do Benin. Neste, um conjunto de aldeias prestava a obediência ao obá, título do principal chefe do reino. Toso os obás dos reinos iorubas diziam que seus antepassados haviam saído do Ifé, sendo membros de uma mesma família real. O oni, ou obá de Ifé, tinha ascendência espiritual sobre quase todos os reinos iorubas (Oió, por exemplo, não a aceitava) e era ele quem distribuía os símbolos reais. Os adés, coroas feitas de contas de coral, com fios cobrindo o rosto do oni, foram um dos principais símbolos do poder disseminados junto com o sistema de monarquia divina. Esta se caracterizava pela estreita ligação do oni com as divindades, sendo por elas escolhido e servindo de seu intermediário com a comunidade que governava.

Muito do que sabemos sobre Ifé e o reino do Benin nos foi contado por cabeças e placas esculpidas e moldadas em metal, que datam dos século XV e XVI, época em que os portugueses chegaram a essa região da África. Não se sabe como foram desenvolvidas as técnicas empregadas na feitura desses objetos – hoje em dia considerados obras de arte de rara qualidade – nem por que eles deixaram de ser feitos.

Além das placas, que retratam situações da vida desses povos e que decoravam os palácios reais, as histórias contadas de geração a geração falam do papel de heróis fundadores de novas cidades e reinos, a partir de uma origem comum em Ifé, com Odudua, cujos descendentes teriam fundado outras cidades. Em Ifé, o oni administrava o reino de sua capital, afastada do litoral, vivendo numa cidade de ruas largas e retas, sendo sua moradia uma construção enorme, fortificada, na qual morava com suas centenas de mulheres e filhos, seus conselheiros, os grandes do reino e os escravos.

No século XVI, enquanto outros reinos iorubas ascenderam, Ifé entrou em declínio. A presença de comerciantes na costa atlântica fortaleceu as cidades mais próximas dos lugares em que passaram a ser desejadas pelos chefes africanos. Mas, mesmo com a ascensão de outros reinos e o seu empobrecimento econômico, Ifé manteve a importância religiosa. Todos os chefes das várias cidades-estado que teriam sido fundadas por descendentes de Odudua iam até Ifé para terem seus poderes confirmados pelo oni.

História da África

África: Político (atual)
África: Reinos e cidades antigos


África: Físico

Código de Hamurabi

HAMURABI

Sexto rei sumério durante período controverso (1792-1750 ou 1730-1685 A.C.) e nascido em Babel, "Khammu-rabi" (pronúncia em babilônio) foi fundador do 1o Império Babilônico (correspondente ao atual Iraque), unificando amplamente o mundo mesopotâmico, unindo os semitas e os sumérios e levando a Babilônia ao máximo esplendor. O nome de Hamurabi permanece indissociavelmente ligado ao código jurídico tido como o mais remoto já descoberto: o Código de Hamurabi. O legislador babilônico consolidou a tradição jurídica, harmonizou os costumes e estendeu o direito e a lei a todos os súditos. Seu código estabelecia regras de vida e de propriedade, apresentando leis específicas, sobre situações concretas e pontuais.
O texto de 281 preceitos (indo de 1 a 282 mas excluindo a cláusula 13 por superstições da época) foi reencontrado sob as ruínas da acrópole de Susa por uma delegação francesa na Pérsia e transportado para o Museu do Louvre, Paris. Consiste em um monumento talhado em dura pedra negra e cilíndrica de diorito. O tronco de pedra possui 2,25m de altura, 1,60m de circunferência na parte superior e 1,90m na base. Toda a superfície dessa "estela" cilíndrica de diorito está coberta por denso texto cuneiforme, de escrita acádica. Em um alto-relevo retrata-se a figura de "Khammu-rabi" recebendo a insígnia do reinado e da justiça de Shamash, deus dos oráculos. O código apresenta, dispostas em 46 colunas de 3.600 linhas, a jurisprudência de seu tempo, um agrupamento de disposições casuísticas, de ordem civil, penal e administrativa. Mesmo havendo sido formulado a cerca de 4000 anos, o Código de Hamurabi apresenta algumas tentativas primeiras de garantias dos direitos humanos.

Código de Hamurabi – c. 1780 a.C.

Fonte: Museu do Louvre, Paris

(trechos selecionados)

1. Se alguém enganar a outrem, difamando esta pessoa, e este outrem não puder provar, então que aquele que enganou deve ser condenado à morte.

2. Se alguém fizer uma acusação a outrem, e o acusado for ao rio e pular neste rio, se ele afundar, seu acusador deverá tomar posse da casa do culpado, e se ele escapar sem ferimentos, o acusado não será culpado, e então aquele que fez a acusação deverá ser condenado à morte, enquanto que aquele que pulou no rio deve tomar posse da casa que pertencia a seu acusador.

3. Se alguém trouxer uma acusação de um crime frente aos anciões, e este alguém não trouxer provas, se for pena capital, este alguém deverá ser condenado à morte.

5. Um juiz deve julgar um caso, alcançar um veredicto e apresentá-lo por escrito. Se erro posterior aparecer na decisão do juiz, e tal juiz for culpado, então ele deverá pagar doze vezes a pena que ele mesmo instituiu para o caso, sendo publicamente destituído de sua posição de juiz, e jamais sentar-se novamente para efetuar julgamentos.

6. Se alguém roubar a propriedade de um templo ou corte, ele deve ser condenado à morte, e também aquele que receber o produto do roubo do ladrão deve ser igualmente condenado à morte.

7. Se alguém comprar o filho ou o escravo de outro homem sem testemunhas ou um contrato, prata ou ouro, um escravo ou escrava, um boi ou ovelha, uma cabra ou seja o que for, se ele tomar este bem, este alguém será considerado um ladrão e deverá ser condenado à morte.

8. Se alguém roubar gado ou ovelhas, ou uma cabra, ou asno, ou porco, se este animal pertencer a um deus ou à corte, o ladrão deverá pagar trinta vezes o valor do furto; se tais bens pertencerem a um homem libertado que serve ao rei, este alguém deverá pagar 10 vezes o valor do furto, e se o ladrão não tiver com o que pagar seu furto, então ele deverá ser condenado à morte.

9. Se alguém perder algo e encontrar este objeto na posse de outro: se a pessoa em cuja posse estiver o objeto disser " um mercador vendeu isto para mim, eu paguei por este objeto na frente de testemunhas" e se o proprietário disse" eu trarei testemunhas para que conhecem minha propriedade" , então o comprador deverá trazer o mercador de quem comprou o objeto e as testemunhas que o viram fazer isto, e o proprietário deverá trazer testemunhas que possam identificar sua propriedade. O juiz deve examinar os testemunhos dos dois lados, inclusive o das testemunhas. Se o mercador for considerado pelas provas ser um ladrão, ele deverá ser condenado à morte. O dono do artigo perdido recebe então sua propriedade e aquele que a comprou recebe o dinheiro pago por ela das posses do mercador.

10. Se o comprador não trouxer o mercador e testemunhas ante a quem ante quem ele comprou o artigo, mas seu proprietário trouxer testemunhas para identificar o objeto, então o comprador é o ladrão e deve ser condenado à morte, sendo que o proprietário recebe a propriedade perdida.

11. Se o proprietário não trouxer testemunhas para identificar o artigo perdido, então ele está mal-intencionado, e deve ser condenado à morte.

12. Se as testemunhas não estiverem disponíveis, então o juiz deve estabelecer um limite, que se expire em seis meses. Se suas testemunhas não aparecerem dentro de seis meses, o juiz estará agindo de má fé e deverá pagar a multa do caso pendente.
[Nota: não há 13ªLei no Código, 13 provavelmente sendo considerado um número de azar ou então sacro]

14. Se alguém roubar o filho menor de outrem, este alguém deve ser condenado à morte.

15. Se alguém tomar um escravo homem ou mulher da corte para fora dos limites da cidade, e se tal escravo homem ou mulher, pertencer a um homem liberto, este alguém deve ser condenado à morte.

16. Se alguém receber em sua casa um escravo fugitivo da corte, homem ou mulher, e não trouxe-lo à proclamação pública na casa do governante local ou de um homem livre, o mestre da casa deve condenado à morte.

17. Se alguém encontrar um escravo ou escrava fugitivos em terra aberta e trouxe-los a seus mestres, o mestre dos escravos deverá pagar a este alguém dois shekels de prata.

18. Se o escravo não der o nome de seu mestre, aquele que o encontrou deve trazê-lo ao palácio; uma investigação posterior deve ser feita, e o escravo devolvido a seu mestre.

19. Se este alguém mantiver os escravos em sua casa, e eles forem pegos lá, ele deverá ser condenado à morte.

20. Se o escravo que ele capturou fugir dele, então ele deve jurar aos proprietários do escravo, e ficar livre de qualquer culpa.

21. Se alguém arrombar uma casa, ele deverá ser condenado à morte na frente do local do arrombamento e ser enterrado.

22. Se estiver cometendo um roubo e for pego em flagrante, então ele deverá ser condenado à morte.

23. Se o ladrão não for pego, então aquele que foi roubado deve jurar a quantia de sua perda; então a comunidade e... em cuja terra e em cujo domínio deve compensá-lo pelos bens roubados.

38. Um capitão, homem ou alguém sujeito a despejo não pode responsabilizar por a manutenção do campo, jardim e casa a sua esposa ou filha, nem pode usar este bem para pagar um débito.

39. Ele pode, entretanto, assinalar um campo, jardim ou casa que comprou e que mantém como sua propriedade, para sua esposa ou filha e dar-lhes como débito.

40. Ele pode vender campo, jardim e casa a um agente real ou a qualquer outro agente público, sendo que o comprador terá então o campo, a casa e o jardim para seu usufruto.

41. Se fizer uma cerca ao redor do campo, jardim e casa de um capitão ou soldado, quando do retorno destes, a campo, jardim e casa deverão retornar ao proprietário.

42. Se alguém trabalhar o campo, mas não obtiver colheita dele, deve ser provado que ele não trabalhou no campo, e ele deve entregar os grãos para o dono do campo.

43. Se ele não trabalhar o campo e deixá-lo pior, ele deverá retrabalhar a terra e então entregá-la de volta ao seu dono.

48. Se alguém tiver um débito de empréstimo e uma tempestade prostrar os grãos ou a colheita for ruim ou os grãos não crescerem por falta d'água, naquele ano a pessoa não precisa dar ao seu credor dinheiro algum, ele devendo lavar sua tábua de débito na água e não pagar aluguel naquele ano.

116. Se o prisioneiro morrer na prisão por mau tratamento, o chefe da prisão deverá condenar o mercador frente ao juiz. Caso o prisioneiro seja um homem livre, o filho do mercador deverá ser condenado à morte; se ele era um escravo, ele deverá pagar 1/3 de uma mina em outro, e o chefe de prisão deve pagar pela negligência.

127. Se alguém "apontar o dedo" (enganar) a irmã de um deus ou a esposa de outro alguém e não puder provar o que disse, esta pessoa deve ser levada frente aos juizes e sua sobrancelha deverá ser marcada.

128. Se um homem tomar uma mulher como esposa, mas não tiver relações com ela, esta mulher não será esposa dele.

129. Se a esposa de alguém for surpreendida em flagrante com outro homem, ambos devem ser amarrados e jogados dentro d'água, mas o marido pode perdoar a sua esposa, assim como o rei perdoa a seus escravos.

130. Se um homem violar a esposa (prometida ou esposa-criança) de outro homem, o violador deverá ser condenado à morte, mas a esposa estará isenta de qualquer culpa.

131. Se um homem acusar a esposa de outrém, mas ela não for surpreendida com outro homem, ela deve fazer um juramento e então voltar para casa.

132. Se o "dedo for apontado" para a esposa de um homem por causa de outro homem, e ela não for pega dormindo com o outro homem, ela deve pular no rio por seu marido.

133. Se um homem for tomado como prisioneiro de guerra, e houver sustento em sua casa, mas mesmo assim sua esposa deixar a casa por outra, esta mulher deverá ser judicialmente condenada e atirada na água.

134. Se um homem for feito prisioneiro de guerra e não houver quem sustente sua esposa, ela deverá ir para outra casa, e a mulher estará isenta de toda e qualquer culpa.

135. Se um homem for feito prisioneiro de guerra e não houver quem sustente sua esposa, ela deverá ir para outra casa e criar seus filhos. Se mais tarde o marido retornar e voltar à casa, então a esposa deverá retornar ao marido, assim como as crianças devem seguir seu pai.

136. Se fugir de sua casa, então sua esposa deve ir para outra casa. Se este homem voltar e desejar Ter sua esposa de volta, por que ele fugiu, a esposa não precisa retornar a seu marido.

137. Se um homem quiser se separar de uma mulher ou esposa que lhe deu filhos, então ele deve dar de volta o dote de sua esposa e parte do usufruto do campo, jardim e casa, para que ela possa criar os filhos. Quando ela tiver criado os filhos, uma parte do que foi dado aos filhos deve ser dada a ela, e esta parte deve ser igual a de um filho. A esposa poderá então se casar com quem quiser.

138. Se um homem quiser se separar de sua esposa que lhe deu filhos, ele deve dar a ela a quantia do preço que pagou por ela e o dote que ela trouxe da casa de seu pai, e deixá-la partir.

148. Se um homem tomar uma esposa, e ela adoecer, se ele então desejar tomar uma Segunda esposa, ele não deverá abandonar sua primeira esposa que foi atacada por uma doença, devendo mantê-la em casa e sustentá-la na casa que construiu para ela enquanto esta mulher viver.

154. Se um homem for culpado de incesto com sua filha, ele deverá ser exilado.

155. Se um homem prometer uma donzela a seu filho e seu filho ter relações com ela, mas o pai também tiver relações com a moça, então o pai deve ser preso e ser atirado na água para se afogar.

185. Se um homem adotar uma criança e der seu nome a ela como filho, criando-o, este filho crescido não poderá ser reclamado por outrém.

186. Se um homem adotar uma criança e esta criança ferir seu pai ou mãe adotivos, então esta criança adotada deverá ser devolvida à casa de seu pai.

190. Se um homem não sustentar a criança que adotou como filho e criá-lo com outras crianças, então o filho adotivo pode retornar à casa de seu pai.

191. Se um homem, que tenha adotado e criado um filho, fundado um lar e tido filhos, desejar desistir de seu filho adotivo, este filho não deve simplesmente desistir de seus direitos. Seu pai adotivo deve dar-lhe parte da legítima, e só então o filho adotivo poderá partir, se quiser. Ele não deve dar, porém, campo, jardim ou casa a este filho.

194. Se alguém der seu filho para uma ama (babá) e a criança morrer nas mãos desta ama, mas a ama, com o desconhecimento do pai e da mãe, cuidar de outra criança, então eles devem acusá-la de estar cuidando de uma outra criança sem o conhecimento do pai e da mãe. O castigo desta mulher será Ter os seus seios cortados.

- continua até 282.

"...Para que o forte não prejudique o mais fraco, afim de proteger as viúvas e os órfãos, ergui a Babilônia...para falar de justiça a toda a terra, para resolver todas as disputas e sanar todos os ferimentos, elaborei estas palavras preciosas..." (retirado do Epílogo do Código de Hamurabi).

A VARIEDADE DOS POVOS AFRICANOS

I. A África Nilótica e Saariana.

As informações mais antigas acerca dos povos africanos referem-se ao Egito, onde floresceu ha cinco mil anos, no valo do rio Nilo, uma civilização que durou mais de dois mil anos se deixou algumas marcas de sua grandeza, como os túmulos reais e as pinturas. Ainda na região do Nilo, outra civilização grandiosa foi a Núbia (cerca de 750 a.C.), localizada na forquilha formada pelo encontro do Nilo Branco com o Nilo Azul. Nessa região, localizada no atual Sudão, houve sucessivos reinos que se impuseram sobre seus vizinhos, destacando-se Meroe, em torno de 500 a. C., e Etiópia, que desde o século VI da nossa era incorporou o cristianismo como religião oficial.

Desde o ano 100 de nossa era havia cristãos em Alexandria, no Egito; e no século IV o evangelho era pregado na Núbia, que se ligava tanto ao Egito pelo Nilo, como à Palestina, pelo Mar Vermelho. Na Etiópia, ao sul da Núbia, o cristianismo chegou principalmente pelo mar Vermelho e resistiu à constante pressão que o Islamismo exerceu sobre ele.

Essas regiões eram habitadas por povos oriundos da península Arábica, misturados com populações originarias do continente africano. Foi pelos portos do Mar Vermelho e pelo istmo de Suez que tanto os cristãos como os árabes penetraram no continente africano, mantendo com ele relações duradouras. A partir de 660, os seguidores de Maomé conquistaram povos a leste e a oeste da península Arábica levando consigo o Islamismo, religião que seria cada vez mais importante na África

Os habitantes do norte da África, onde hoje se localizam a Líbia, a Tunísia, a Argélia e o Marrocos, eram conhecidos como berberes e sofreram forte influencia árabe desde o século VII. Mas "Berbere" também é o nome dado a uma variedade de povos nômades, que viviam na região do deserto, que criavam camelos e conheciam os oásis e os poços de água, como os azenegues e tuaregues. No vale do rio Nilo e em algumas terras férteis próximas à costa, agricultores se fixaram em torno de aldeias ou cidades maiores. O pastoreio e o comercio eram as atividades de muitos. Na costa do Mediterrâneo estavam os portos por onde passavam as mercadorias trazidas pelas caravanas que transitavam pelo deserto do Saara e pelo Sael.

O deserto do Saara era, como ainda é, habitado por uma variedade de povos nômades, que o conheciam muito bem. Esse conhecimento fazia deles os guias que tornavam possível o transito de pessoas e produtos por regiões tão inóspitas. O camelo, animal trazido da península Arábica - embora já existisse no Egito Antigo - passou a ser usado com mais freqüência somente a partir do século VI de nossa era. Com ele, as condições de circulação pelo deserto melhoraram muito, graças à sua forca e à sua capacidade de ficar muitos dias sem comer e beber água. O camelo facilitou a comunicação através do deserto e sustentou um comercio que uniu o Sael ao norte da África e ao Mediterrâneo. Dai as cargas ainda seguiam para a península Arábica e para o mar Vermelho, por terra e por mar.

802. 11/09/09 Os comerciantes tuaregues ligavam toda a região do Sael, no passado também conhecido como Sudão - em árabe Bilad al-Sudan (que quer dizer terra de negros) -, ao norte islamizado da África. Eles foram os principais difusores do islã por toda essa região que corresponde mais ou menos aos atuais países do Sudão, Chade, Níger, Mali, Burquina Faso, Mauritânia e Saara Ocidental. Foi ai que se formaram os antigos impérios de Gana (séculos VI a XIII), Mali (séculos XIII a XVII) e Songai (séculos XVII e XVIII).

Para a existência de todos esses impérios foram decisivas as condições físicas do delta interior do Níger, como é chamada a região onde esse rio faz uma acentuada curva para o sul. Na altura dessa curva forma-se uma rede de rios e canais interligados que fertilizam a região vizinha do Saara.

Essa fertilidade garantiu o sustento de muita gente, tanto nativa como a que estava de passagem.

Esses rios também favoreciam as atividades comerciais, que se serviam deles como vias de locomoção. As canoas eram o principal meio para transportar as cargas das caravanas que iam e vinham, ligando as áreas de florestas ao deserto e aos portos do Mediterrâneo, aos quais as mercadorias chegavam em lombos de camelos.

Nas cidades mais freqüentadas pelos comerciantes, que por ali circulavam desde o século VI, e onde as terras era mais férteis, como Tombuctu, Gaô, e Jené, no atual Mali, havia muitos azenegues, tuaregues e outros berberes, todos eles povos arabizados. Mas os povos que moravam nessas regiões eram diferentes desses habitantes do deserto e do norte da África e não eram muçulmanos. Ali viviam principalmente mandingas e fulas, mas também uma variedade de outros grupos que faziam questão de se manter diferentes de seus vizinhos, mesmo convivendo lado-a-lado. Além de comerciar com os nômades do Saara, eles eram pastores, cultivavam alimentos, faziam tecidos e cerâmicas e trabalhavam o couro.

Nas cidades se concentravam os comerciantes, os administradores, os artesãos e os mais ricos, e ao redor delas os que plantavam e criavam os animais, abastecendo as cidades, além de produzir o sustento de suas famílias. Mesmo convivendo de maneira muito próxima, cada grupo guardava sua identidade. Cada um deles repetia as histórias de seus antepassados e de seus chefes, mantinha suas regras de convivência, seus valores e suas crenças e falava línguas e dialetos diversos. Mas, apesar das identidades particulares, os diferentes grupos conviviam em harmonia, se completavam e ajudavam.

Apoiadas pela fertilidade, que facilitava a manutenção e reprodução dos grupos, as caravanas que por ali passavam eram a principal causa da prosperidade da região. Por estarem à beira do deserto e ligadas a uma rede de rios usados como meios de transporte, essas cidades passaram a ser importantes centros de comércio.

A MESOPOTÂMIA

COM A CIDADE, SURGE O ESTADO

As primeiras cidades se formaram justamente na região onde a agricultura começou a se desenvolver: no Oriente Médio, em uma extensa faixa em forma de meia-lua, conhecido como Crescente Fértil. Atualmente essa área corresponde a partes do território do Iraque, da Síria, do Líbano, da Jordânia e de Israel.

No longo processo de transformação da comunidade agrícola em cidade, as decisões foram, pouco-a-pouco, se centralizando em uma só pessoa: o rei. Respeitado e temido pela população, ele passou a controlar todas as atividades. O rei era a autoridade política máxima, o chefe religioso, o líder militar e o grande juiz. Nomeava funcionários para cobrar impostos e cuidar da administração, declarava guerra, mandava erguer templos e realizava o culto aos deuses. Ele reunia sob sua autoridade toda a população de seus domínios. O rei antigo era a personificação do Estado.

Como constituíam unidades políticas autônomas, as primeiras cidades do Oriente Médio são chamadas de cidades-estados. Elas começaram a surgir por volta de 3500 a.C., na Mesopotâmia.

A Mesopotâmia é uma extensa planície entre os rios Tigre e Eufrates, no atual Iraque. Ali surgiram também os primeiros reinos, formados por diversos povos: sumérios, babilônios, hititas, assírios e caldeus. Eles realizaram conquistas importantes para a humanidade: inventaram a escrita, estabeleceram o código de leis, desenvolveram a metalurgia do ferro, introduziram o uso do cavalo e, baseados em seus estudos astronômicos, criaram o relógio de sol e o calendário, dividiram o dia em 24 horas e o circulo em 360 graus.

Os povos mesopotâmicos enfrentavam muitas dificuldades. A terra era fértil, mas as chuvas eram escassas e os rios provocavam enchentes tão grandes que destruíam os campos de cultivo. Era necessário abrir canais de irrigação, construir diques e celeiros. Esse esforço era controlado pelo rei, que todos acreditavam ter sido enviado pelos deuses para governar todo o povo. Era o representante dos deuses na Terra e servia com intermediário entre eles e os homens. Obedecer ao rei era, portanto, como obedecer aos deuses.


 

A VIDA SOB AS ORDENS DO REI

À volta do rei estavam membros da minoria social dominante que o ajudavam na administração do reino: altos funcionários, governadores, militares e sacerdotes. Esse pequeno grupo não exercia nenhum trabalho manual e usufruía de uma vida confortável e farta. Vivia próximo ao rei e acabava também tendo autoridade sobre o restante da população.

Quanto ao restante da sociedade, havia muitos grupos com diferentes situações sociais: comerciantes, escribas, médicos, soldados, camponeses, artesãos, pedreiros, carregadores de água, escravos etc. Desses, a maioria era formada pelos camponeses que trabalhavam sob o regime de servidão coletiva. Na Mesopotâmia, as terras pertenciam juridicamente aos templos e os camponeses, para poderem cultivá-las, pagavam parte da colheita e estavam obrigados a trabalhar nas obras publicas. Os sacerdotes, principal elo de ligação entre o rei e os trabalhadores, os submetiam através da fé e da coerção.

Muitos escravos eram prisioneiros de guerra. Mas um homem livre em dificuldades financeiras ou obrigado pela fome podia vender os filhos ou a si mesmo e a toda a sua família como escravos. Estava garantida aos escravos por dividas a reconquista de sua liberdade, caso conseguissem saldá-las.

O rei também controlava o comercio, que, na Mesopotâmia, era muito ativo. Faltavam no país metais, madeira e pedras. Usava-se a cevada, a lã e a prata como padrão de valor para as transações comerciais. Muitos mercadores emprestavam a juros, compravam terras e contratavam trabalhadores. Isso permitiu que muitos deles enriquecessem.

A atividade comercial mesopotâmica foi a origem das modernas operações comerciais e bancarias. Para cada negocio, estipulava-se um contrato escrito em tabuinhas de argila e depois selado com selos cilíndricos. Foram encontrados milhares de tabuinhas e selos referentes a contrato de casamento, vendas, listas de viveres, tratados, empréstimos etc.

Entre as principais culturas agrícolas na Mesopotâmia estavam a cevada, que era transformada em farinha e da qual se fazia cerveja; o sésamo, do qual se extraia um óleo; a tamareira, a vinha e a figueira. Criavam-se ovelhas, bois, asnos e, a partir do primeiro milênio a.C., cavalos. Os mesopotâmicos também se destacaram na fabricação de tijolos, na metalurgia, no trabalho em pedra para a construção, na fabricação de bebidas e perfumes, na tecelagem e na tinturaria.


 

A JUSTICA DO REI

Hamurabi foi um importante rei da antiga Mesopotâmia. Em seu reinado conseguiu unir os diversos povos de toda a região. A cidade da Babilônia tornou-se o centro de seu império. Governar uma população tão numerosa e diferenciada não era fácil. Hamurabi fixou regras para centralizar seu governo em termos administrativos e jurídicos. No final de seu longo reinado (1792 a 1750 a. C.), mandou gravar em pedras suas sentenças e leis. Elas ficaram conhecidas como Código de Hamurabi.

Eram 282 regras distribuídas em 3,5 mil linhas e 51 colunas. A estela de pedra com o código tem 2,25 de altura. No alto, foi esculpida a figura de Samash, o deus da justiça, simbolizado pelo Sol, sentado em seu trono. À sua frente, de pé, o rei Hamurabi recebe as leis para julgar a população. A pedra ficava exposta no pátio do templo do deus Marduk, na Babilônia, para consulta publica. Seu objetivo era o de assegurar a justiça sobre toda a população.

O Código tratava de diversos assuntos e das punições a serem aplicadas aos culpados. Abrangia questões relacionadas à família, à terra, ao comercio, à propriedade, à herança, à escravidão, entre outras. As leis nos oferecem um retrato da sociedade mesopotâmica, pois mostra os deveres e os direitos de cada grupo social. Em sua maior parte, o código segue o principio da Lei de Talião, "olho por olho, dente por dente". As penas impostas variavam conforme o tipo de crime e o grupo social ao qual pertencia a vitima ou o réu.


 

A ARQUITETURA RELIGIOSA E REAL

A Babilônia foi, por séculos, a cidade mais importante da Antiguidade oriental. Suas construções imponentes e fortificadas simbolizaram, para muitas gerações, o poder do Estado, da forca militar e da autoridade religiosa. Possuía templos, palácios, muralhas, torres de vigia. Foi no reinado de Nabucodonosor (604-562 a.C.), marcado pela construção de grandes obras publicas, que se ergueram os Jardins Suspensos da Babilônia. Ate hoje são considerados uma das "maravilhas do mundo".

O templo mesopotâmico, construído no alto de uma grande torre chamada zigurate, era dedicado ao um único deus. Como a religião mesopotâmica era politeísta, existiam numerosos templos nas cidades. A cidade da Babilônia, põe exemplo, possuía cerca de cinqüenta templos para os grandes deuses e quase mil capelas para divindades menores. Era obrigação do rei ergue-los, pois acreditava-se que só assim os deuses ajudariam o povo, proporcionando-lhe água, fartura e vitorias.

As construções eram feitas de tijolos com tamanhos padronizado e vitrificados, uma técnica inventada pelos mesopotâmicos. Além de serem resistentes e duráveis, ainda protegiam o edifício da umidade provocada pelas infiltrações de água.

Os mesopotâmicos aperfeiçoaram a técnica de fabricação de tijolos devido à escassez de pedra. Seus tijolos vitrificados deram origem ao azulejo, um material impermeabilizante e decorativo.

Os povos mesopotâmicos valorizavam a forca física, a coragem e a ousadia. Seus deuses eram guerreiros e caçadores. As paredes dos palácios exibiam pinturas com cenas de guerra e de caca, onde o rei aparecia sempre vitorioso. Nas esculturas, acentuavam os elementos que, para eles, simbolizavam a bravura e a forca física: os músculos, a barba e o cabelo, a juba dos leões e as asas e garras dos pássaros. A figura do rei, devido ao seu caráter sagrado, era geralmente maior que a dos outros personagens, sobretudo os vencidos e prisioneiros. Sua altura era a mesma dos deuses.

O CRISTIANISMO COMO LEGITIMAÇÃO DO PODER.

Quando no século XII Portugal se constituiu como unidade política na qual os senhores locais passaram a aceitar a autoridade do rei, o cristianismo era a religião dos reis e nobres europeus. Para os reinos que começavam a se formar, era de máxima importância o apoio da Igreja Católica, com sede em Roma. Uma das mais fortes justificativas de que o poder de um determinado rei era legitimo era a religiosa, pois sendo ele aprovado pelo papa o seria por Deus. AA medida que a monarquia portuguesa foi se fortalecendo, principalmente a partir de meados do século XV, quando as expedições oceânicas começaram a ir mais longe, os cronistas da corte elaboraram uma historia que justificava o poder dos reis e do reino numa aliança direta com Deus, percebida em algumas situações particulares nas quais milagres teriam ocorrido. O ato fundador do reino português segundo esses textos escritos a partir de cerca de 1450 teria sido a vitoria de d. Afonso Henrique (que depois se tornou d. Afonso I de Portugal) contra o exercito muçulmano em Ourique, em 1139. Para os cronistas que narraram essa historia, só um milagre explicaria a vitoria sobre o exercito numericamente superior dos mouros, que era como só portugueses chamavam os muçulmanos do norte da África e da península ibérica.

A ideia de um reino africano fundado no Cristianismo fazia com que os governantes portugueses tomassem para si a tarefa de converter ao catolicismo povos pagãos, isto é, que conheciam a religião católica. AA medida que o pequeno reino expandia suas fronteiras com a conquista dos mares e a exploração da costa africana e americana, ia justificando o domínio sobre os povos e as terras que encontrava por estar levando a eles a palavra de Deus e a possibilidade de salvação de suas almas

RETRATO FÍSICO DO CONTINENTE AFRICANO

O continente africano é cercado a nordeste pelo mar Vermelho, ao norte pelo mar Mediterrâneo, a oeste pelo oceano Atlântico e a leste pelo oceano Índico. O istmo de Suez o liga à península Arábica, Em termos geográficos, suas principais marcas são o deserto do Saara ao norte, o deserto do Calahari a sudeste, a floresta tropical no centro do continente, as savanas ou campos de vegetação esparsa e rasteira, que separam áreas desérticas de áreas de florestas, e algumas terras altas, como aquelas nas quais nascem os rios que formam o Nilo.

Os rios são os meios de comunicação mais importantes do continente. Entre eles se destacam o Nilo, que nasce na região do lago Vitoria e deságua no Mediterrâneo; o Senegal, o Gâmbia, o Volta e o Níger, que nascem nas montanhas do Fula Jalom e deságuam no oceano Atlântico, em pontos diferentes da costa ocidental africana; o Congo e o Cuanza, que nascem nos planaltos do interior de Angola e no coração da floresta equatorial central e deságuam no oceano Atlântico, na costa africana centro-ocidental; e, finalmente, o Limpopo e o Zambeze, no sudeste do continente, que deságuam na costa do oceano Índico, onde hoje é Moçambique. Também são referências geográficas importantes os grandes lagos da região centro-oriental.

A grande faixa do Saara divide o continente. Ali onde um dia existiram lagos, existem hoje algumas minas de sal. O deserto se estende da costa do Atlântico à do mar Vermelho, cortado a oeste pelo rio Níger e a leste pelo rio Nilo. AAs margens desses dois rios ha terras férteis, nas quais a agricultura de criação de animais permitiram o desenvolvimento de sociedades complexas, que tiveram uma dose de grandiosidade. As bordas sul e oeste do Saara são conhecidas como Sael, ou as praias do deserto. Nessas áreas de savana são cultivados grãos e criados animais.

A costa ocidental, onde deságuam os rios Senegal, Níger e Congo, era coberta por florestas que foram pouco a pouco derrubadas pelos povos que viviam nessas terras, nas quais cultivavam alimentos e criavam animais, alem de caçar, pescar e aproveitar os frutos da natureza. A floresta equatorial domina o centro do continente, cercada de savanas que a sudoeste se misturam ao deserto do Calahari, a sudeste chegam ate o mar e ao norte se encontram com o Sael. Nessas áreas de savana a criação de gado muitas vezes, ainda hoje, é a principal aitividade econômica. Nos espaços abertos dentro das florestas que foram diminuindo à medida que as populações cresceram, eram plantados tubérculos, leguminosas, vagens e grãos. Em algumas áreas a agricultura se combinava com o pastoreio, ou à caca, pesca e extração de produtos da natureza. Apesar das enormes mudanças pelas quais passou o continente nos últimos cem anos, em muitos lugares as pessoas ainda vivem dependendo das condições naturais, plantadas e pastoreando.

domingo, 23 de agosto de 2009

Demorô... mas saiu...as pérolas do ENEM 2009

O tema da redação do Enem 2008 foi Aquecimento Global, e como acontece todo ano, não faltaram preciosidades. Lá vão:

1) "o problema da amazônia tem uma percussão mundial. Várias Ongs já se estalaram na floresta." (percussão e estalos. Vai ficar animado o negócio)

2) "A amazônia é explorada de forma piedosa." (boa)

3) "Vamos nos unir juntos de mãos dadas para salvar planeta." (tamo junto nessa, companheiro. Mais juntos, impossível)

4) "A floresta tá ali paradinha no lugar dela e vem o homem e créu." (e na velocidade 5!)

5) "Tem que destruir os destruidores por que o destruimento salva a floresta." (pra deixar bem claro o tamanho da destruição)

6) "O grande excesso de desmatamento exagerado é a causa da devastação." (pleonasmo é a lei)

7) "Espero que o desmatamento seja instinto." (selvagem)

8) "A floresta está cheia de animais já extintos. Tem que parar dedesmatar para que os animais que estão extintos possam se reproduzirem e aumentarem seu número respirando um ar mais limpo." (o verdadeiro milagre da vida)

9) "A emoção de poluentes atmosféricos aquece a floresta." (também fiquei emocionado com essa)

10) "Tem empresas que contribui para a realização de árvores renováveis." (todo mundo na vida tem que ter um filho, escrever um livro, e realizar uma árvore renovável)

11) "Animais ficam sem comida e sem dormida por causa das queimadas." (esqueceu que também ficam sem o home theater e os dvd's da coleção do Chaves)

12) "Precisamos de oxigênio para nossa vida eterna." (amém)

13) "Os desmatadores cortam árvores naturais da natureza." (e as renováveis?)

14) "A principal vítima do desmatamento é a vida ecológica." (deve ser culpa da morte ecológica)

15) "A amazônia tem valor ambiental ilastimável." (ignorem, por favor)

16) "Explorar sem atingir árvores sedentárias." (peguem só as que estiverem fazendo caminhadas e flexões)

17) "Os estrangeiros já demonstraram diversas fezes enteresse pela amazônia." (o quê?)

18) "Paremos e reflitemos." (beleza)

19) "A floresta amazônica não pode ser destruída por pessoas não autorizadas." (onde está o Guarda Belo nessas horas?)

20) "Retirada claudestina de árvores." (caraulio)

21) "Temos que criar leis legais contra isso." (bacana)

22) "A camada de ozonel." (Chris O'Zonnell?)

23) "a amazônia está sendo devastada por pessoas que não tem senso de humor." (a solução é colocar lá o pessoal da Zorra Total pra cortar árvores)

24) "A cada hora, muitas árvores são derrubadas por mãos poluídas, sem coração." (para fabricar o papel que ele fica escrevendo asneiras)

25) "A amazônia está sofrendo um grande, enorme e profundíssimo desmatamento devastador, intenso e imperdoável." (campeão da categoria "maior enchedor de lingüiça")

26) "Vamos gritar não à devastação e sim à reflorestação." (NÃO!)

27) "Uma vez que se paga uma punição xis, se ganha depois vários xises." (gênio da matemática)

28) "A natureza está cobrando uma atitude mais energética dos governantes." (red bull neles - dizem as árvores)

29) "O povo amazônico está sendo usado como bote expiatório" (ótima)

30) "O aumento da temperatura na terra está cada vez mais aumentando." (subindo!)

31) "Na floresta amazônica tem muitos animais: passarinhos, leões, ursos, etc." (deve ser a globalização)

32) "Convivemos com a merchendagem e a politicagem." (gzus)

33) "Na cama dos deputados foram votadas muitas leis." (imaginem as que foram votadas no banheiro deles)

34) "Os dismatamentos é a fonte de inlegalidade e distruição da froresta amazonia." (oh god)

35) "O que vamos deixar para nossos antecedentes?" (dicionários)

segunda-feira, 6 de julho de 2009



Professores da Rede Pública...



Sinais dos tempos

História da África II

A África Colonial: a perda da soberania nacional,
da iniciativa socioeconômica e a limitação da autonomia cultural

Os "tráficos negreiros" empreendidos pelo Oriente a partir do século VIII, e logo apos pelo Ocidente a partir de 1500, tiveram um impacto cumulativo devastador. As sociedades Africanas foram desarticuladas; os grandes espaços administrativos historicamente constituídos (os impérios) se fragmentaram e, no seu lugar, surgiu uma miríade de minúsculos reinos em constantes guerras entre si. Essa massiva fragmentação e incessantes atomizações enfraqueceram terrivelmente as sociedades Africanas que, pouco a pouco, perderam a capacidade de resistência perante as agressões externas. A grande desarticulação do continente Africano, por sua vez, preparou as bases para outra grande tragédia - a colonização direta pelo Ocidente.

A partir de 1860, a África começou a perder sua independência política com a implantação, em seu território, de todas essas potencias européias que a colonizaram militarmente, país por país e região por região: franceses, britânicos, belgas, portugueses, espanhóis, alemães, holandeses. No confronto militar com o Ocidente, as elites Africanas foram decididamente derrotadas e a Europa assumiu diretamente a conduta política do continente Africano. Somente a Etiópia escaparia a essa humilhante experiência de avassalamento geral.

Em 1884-1885, as potencias ocidentais vencedoras fincaram sua hegemonia total sobre os Africanos como conseqüência da chamada Conferência de Berlim - conclave de nações imperialistas européias, que conduziu à partilha brutal do continente Africano e a sua total colonização, com exceção da Etiópia. Com a Conferência de Berlim, os Africanos perderam a sua soberania nacional, a iniciativa socioeconômica e sofreram uma grave limitação de sua autonomia cultural. Em um período de apenas quarenta anos - entre 1860 e 1900 -, o continente Africano foi esquartejado em uma multidão de "colônias" e "protetorados". Apenas a Etiópia conseguiu manter sua independência mediante uma luta feroz contra os invasores europeus (italianos), que foram derrotados na Batalha de Adwa, em 1896.

Entre 1860 e 1900, todos os países Africanos (exceto a Etiópia) ficaram subjugados e colonizados e os imperialistas europeus desarticularam todas as estruturas básicas da administração autóctone. Com a implantação hegemônica dos valores e usos ocidentais, a África não seria nunca mais o que, até então, tinha sido e os Africanos perderiam uma grande parte da confiança em si, proporcionada pelas próprias culturas autóctones e pelas suas civilizações regionais. As classes dirigentes Africanas do período "Ressurgente" viram subtraídas todas as suas prerrogativas políticas, econômicas e militares e foram avassaladas. As aristocracias Africanas ficaram ou destituídas ou neutralizadas (os chamados "protetorados"); todos os governos autóctones, incluindo aqueles que serviram para viabilizar os "tráficos negreiros", foram liquidados.

Aquelas elites Africanas "parceiras", que anteriormente lucravam através do comercio intenso com o mundo exterior, essencialmente baseado no tráfico de seres humanos, viram-se convertidos em simples lacaios do poder colonial. Derrotados e "marionetizadas", essas elites constituíram, a partir desse momento, a base social sobre a qual o poder colonial iria reconstituir as sociedades Africanas em seu favor e compor novas elites a seu serviço. Assim, criaram-se novas elites Africanas, corruptas e submissas, facilmente manipuláveis. Concretamente, foi isso o que aconteceu, e haverá de se compreender esse processo de colonização de todo o continente, a destruição massiva dos valores Africanos que acarretou, assim como as estruturas e mentalidades de submissão que foram implantadas, para se entender tudo o que se seguiu, até a reconquista da independência Africana nos anos 1950 e 1960 num contexto mundial totalmente desfavorável aos Africanos.

A colonização criou novas redes de "cooperação" entre os ocupantes europeus e a maioria das elites locais, especialmente aquelas que anteriormente tinham intermediado os "tráficos negreiros". A maioria das aristocracias autóctones foram "recuperadas" e postas a serviço do ocupante europeu mediante uma política que os britânicos chamaram de "governo indireto", ou seja, um governo colonial atuando por intermédio de prestigiados dirigentes locais "reconvertidos". Os colonizadores franceses, belgas, italianos, portugueses e espanhóis, no entanto, preferiram implantar sistemas de "governo direto", baseados na "assimilação".

No livro Amkoullel, o Menino Fula (2003), de Amadou Hampâté Bâ, vê-se nitidamente como a colonização francesa criou, artificialmente, as novas elites subservientes Africanas de hoje. O interessante nesse livro é que Hampâté Bâ esta narrando sua própria historia sob a colonização: como ele cresceu dentro de uma família Africana tradicional e como se converteu, progressivamente, em funcionário publico a serviço do ocupante colonial.

Por intermédio do relato de Bâ, têm-se uma ideia precisa de como se deu esse processo em que as potências européias criaram uma nova elite de traidores natos, elite à qual entregariam o poder em 1960, como parte de um processo bem orquestrado chamado descolonização. Com efeito, nesse ano, a maioria dos países do continente Africano "recebeu" sua independência política, sendo o controle de suas sociedades repassado pelo antigo colonizador para as elites Africanas que, em grande medida, surgiram das escolas coloniais. Esse livro é relevante e importante, porque traz uma visão de como esse processo se deu.

A repressão que exigiu a conquista e a implantação do poder da Europa na África se traduz numa significativa queda demográfica em todo o continente. O numero de pessoas dizimadas pelos colonialistas, seja durante as guerras de resistência protagonizadas por uma parte das elites (Samory, Toure, Nzinga, Cetewayo, Menelik II, Behanzin), seja nas operações de "pacificação", foi da ordem de milhões. No período de quatro décadas em que a Europa impôs sua dominação sobre toda a África, a densidade populacional desse continente despencou vertiginosamente: as carnificinas, massacres e "limpezas" das chamadas campanhas de pacificação cobraram a vida de dezenas de milhões de Africanos.

Poucos têm uma ideia do que realmente foi a colonização para os Africanos. Muitos continuam ignorando ou minimizando o fato de que a colonização da África foi um verdadeiro ato de genocídio contra a raça negra. Um genocídio tão extenso quanto o genocídio que foram os tráficos negreiros, por uma parte, e a escravização dos Africanos nas Américas, por outra. Para dar uma ideia das proporções inimagináveis da hecatombe que foi a colonização na África, mencionaremos um só país: o Congo, conquistado pelos belgas em 1884 e colonizado até 1960.

Os belgas deram uma denominação estranha à "sua" colônia no Congo - "Estado Livre do Congo". Este se constituiu no único caso de um país que fora incorporado à potencia colonizadora como propriedade pessoal do Chefe de Estado. O Congo era propriedade do próprio rei Leopoldo II, um dos maiores carniceiros da historia antes de Hitler. A realidade recoberta por esse estatuto "sui generis" foi terrível, alem do que as nossas consciências de hoje podem suportar. Estima-se que, no período de 76 anos de duração da colonização belga (1884-1960), pereceram algo como 25 milhões de Africanos neste único país, como resultado da repressão e dos trabalhos forcados. Assim, temos a seguinte versão oficial dos fatos dada pela enciclopédia virtual Wikipédia, que descreve a situação no Congo imediatamente após a ocupação belga: "Para imprimir as cotas de borracha, a 'Force Publique' (Forca Publica) foi instituída (...). Armados com armas modernas e chicote, Forca publica rotineiramente pegava e torturava reféns (na maioria mulheres), acoitava, estuprava, incinerava aldeias e, acima de tudo, extirpava mãos humanas como troféus, mostrando que, quando as cotas não eram cumpridas, não estavam tendo vontade o suficiente de cumprir. Um oficial branco de baixa patente descreveu uma incursão de punição de uma aldeia que havia protestado. O oficial brando em comando: 'Ordenaram-nos a cortar as cabeças dos homens e as pendurar nas cercas da aldeia, bem como seus membros sexuais, e pendurar as mulheres e crianças em forma de cruz'. Apos ver um íncola morto pela primeira vez, um missionário dinamarquês escreveu: 'O soldado disse: não leve muito a serio. Eles matam a nos' se não levarmos borracha. O comissionário nos prometeu que se tivermos muitas mãos, ele encurtara nosso serviço". Nas palavras de Peter Forbath: 'As cestas de mãos cerradas, postas aos pés do chefe de posto europeus, tornaram0se o símbolo do Estado Livre do Congo. (...) A coleção de mãos se tornou-se um fim em si mesmo. Os soldados da Forca Publica as traziam em vez de borracha; eles até mesmo iam colhê-las em lugar de borracha... Elas se tornaram um tipo de moeda. Elas são usadas para amenizar o déficit das cotas de borracha, substituir... o povo, do qual é exigido trabalhar para as gangues de trabalho forcados; e os soldados da Força Publica tinham seus bônus pagos de acordo com a quantidade de mãos eles coletavam.

Em teoria cada mão direita provava um assassinato judicial. Na pratica, soldados trapaceava, simplesmente cortando a Mao e deixando-a vitima para viver ou morrer. Numerosos sobreviventes relataram que eles viveram alem de um massacre, fingindo-se de mortos, não se movendo nem mesmo quando tinham suas mãos serradas. E esperavam os soldados partirem para então procurar socorro. Estimativas do total das chacinas variam consideravelmente. O relatório famoso de 1904 do diplomata britânico Roger Casemente, aponta para 3 milhos apenas nos 20 anos que o regime de Leopold durou; Forbath, no mínimo, 5 milhões; Adam Hochschild 10 milhões; a Enciclopédia Britânica estima um declínio populacional de 20 ou 30 milhões para 8 milhões".

Ou seja, em 20 anos, num só país - o Congo -, os belgas mataram mais Africanos que aqueles mortos e escravizados durante os três séculos que durou o tráfico negreiro pelo Atlântico e a escravidão racial dos Africanos nas Américas. Se essas foram as baixas humanas apenas para o Congo em vinte anos, as cifras para o resto do continente são, simplesmente, inimagináveis. Em uma palavra, a colonização européia do continente Africano resultou, de fato, em um extermínio dos povos Africanos.

Ainda hoje, existem aqueles ingênuos - ou aqueles que fingem sê-lo - que se perguntam o motivo pelo qual o continente Africano se encontra hoje em situação tão desastrosa em que esta, especialmente se comparado à situação do resto do planeta. Ainda existem aqueles que, negando as evidencias que apontam para os tráficos negreiros e para a colonização da África como sendo rotundos crimes contra a humanidade, negam, inclusive, o caráter fundamentalmente racista dessas investidas da Europa contra os povos negros desse continente. A hemorragia humana que a África conheceu com os diferentes tráficos negreiros, de uma parte, e com a colonização européia de outra, nunca teve paralelos na historia da humanidade. Simplesmente se tratou de um genocídio racial.

Ora, fazendo abstração dessas realidades concretas, os novos revisionistas reciclam as velhas teorias sobre a "inferioridade natural" dos negros - a suposta incapacidade inata desses para se autogovernar e a conseqüente necessidade, para o Ocidente, de salvar os negros de si próprios. A inferioridade racial dos povos de raça negra explicaria o catastrófico estado atual do continente Africano. Mas, os fatos históricos apontam para outra direção.

História da África

A África na História Geral: revisitando os "Tráficos Negreiros"


A África, imenso continente constituído atualmente por cinqüenta e quatro países, tem problemas imensos, na verdade, gigantescos; problemas que surgem de um passado já conhecido; um passado singular, um passado totalmente atípico na historia da Humanidade. É um passado no qual a África se distingue por ter sido o berço de toda a humanidade e das primeiras civilizações mundiais, o lugar onde o ser humano, pela primeira vez, erigiu sociedades baseadas na cooperação solidaria.

De entrada, essa projeção da África entra em conflito com uma visão demonizada, na qual os africanos teriam sempre representado formas inferiores de organização e pensamento. A primeira imagem da África, que surge diante de nos, representa os africanos como eternos escravos. Esse passado, marcado pelos tráficos de escravos, é conhecido; vários séculos dessa atividade, que se reverteram numa hemorragia extraordinária de dezenas de milhões de pessoas que saíram compulsoriamente do continente africano como escravizados, para nunca mais voltar.

Não estamos falando unicamente dos vários séculos que tiveram como via de escoamento o Oceano Atlântico, trajeto este mais recente e que foi perpetrado pelas potencias européias. Afinal, nos - que somos o produto direto desse ultimo trafico - ficamos com uma memória muito curta, uma memória circunstancial desse trafico do qual fomos os produtos. Refiro-me, pois, a todos os tráficos. Saibam que esses "tráficos negreiros" começaram antes do século IX de nossa era, bem antes de os europeus pensarem em sair da Europa. No século XVI, quando se inicia o trafico pelo Atlântico, já havia saído da África para serem escravizados no Oriente Médio e na Ásia Meridional, dezenas de milhos de africanos.

Os descendentes desses tráficos esquecidos se encontram hoje espelhados em todo o Oriente Médio, na Turquia, no Ira, no Paquistão, no Afeganistão, na Índia e no Sri Lanka. Estamos evocando mil e quinhentos anos de intensos tráficos de pessoas negras por mercadores, aventureiros e imperialistas nao-negros. Na Índia, existem atualmente comunidades de descendentes desses primeiros tráficos - Siddis ou Habshis - , que se encontram, hoje, em praticamente todas as partes do país. Com efeito, protagonizaram uma historia extraordinária na Índia e hoje, pela primeira vez, estão voltando os olhos para o continente africano e para essa grande diáspora asiática de origem africana que constituem os afro-asiáticos do Paquistão, do Sri Lanka, da Turquia, do Ira, da Arábia Saudita, do Iêmen e do Iraque.

No século XI, sob a dinastia Abássida, com sede em Bagdá (Iraque), ocorreram as primeiras grandes revoltas e insurreições negras da Historia. As repetidas insurreições das populações afro-árabes, denominadas Zang, faziam tremer as elites do Império Árabe. O maior movimento de revolta por parte dos escravizados de qualquer época aconteceu em 967 e durou ate 980, quando os escravos afro-árabes (Zang) do sul do Iraque se organizaram e criaram um Estado independente dos Zang, sob o comando de Ali Muhamed, dirigente religioso de origem árabe, que se identificou com a causa dos revoltosos negros. Cabe a Ali Muhamed, homem místico de raça branca, o grande mérito de ter se erguido contra o Império Abássida, colocando-se à frente da maior das empreitadas realizadas por escravos na Historia antes da Revolução do Haiti, em 1804.

Vale a pena sublinhar que o mesmo processo de perda da memória histórica aflige as populações afro descendentes da diáspora americana também afeta as diásporas africanas no Oriente Médio (Iraque, Síria, Iêmen, Turquia, Ira, Afeganistão) e da Ásia Meridional (Índia, Paquistão, Sri Lanka). Os Siddis da Índia e os Habshis do Paquistão e Afeganistão desconhecem seu próprio passado e o lugar exato do continente africano, de onde vieram seus ancestrais ha mil e trezentos anos. Essas populações afro-asiáticos não tinham ate pouco tempo o menor conhecimento de seu passado e pouco conheciam sobre o regime escravocrata sob o qual tiveram de viver durante muitos séculos. Ora, a experiência dessas populações leva a um lugar de reflexão que é de suma importância para a determinação das realidades africanas que permitiram esses diferentes tráficos negreiros.

Desde o século VIII, o continente africano já tinha se convertido no foco desses tráficos. Os árabes foram os pioneiros e os principais responsáveis por esses tráficos. Alguns estudiosos estimam que, entre o século IX e XV - quando começa o trafico europeu - o mundo árabe talvez a havia retirado da África entre 18 e 20 milhos de africanos.

Temos de nos debruçar, cada vez mais, sobre os porque dessa realidade. Cabe perguntar por que houve uma intermediação de Estados Africanos traficantes. Parece ser uma digressão, mas não é, pois o conhecimento das realidades que permitiram os tráficos negreiros daquela época, também nos permitir compreender como erigir uma cooperação com a África que garanta que esse tipo de situação nunca mais volte a ocorrer.

Ha mais de mil e trezentos anos, a África passou a figurar como palco de todo o tipo de trafico de seres humanos. Evidentemente, seria simplório pensar que esses tráficos aconteceram simplesmente porque outros vinham ate o continente africano e pegavam as populações nas regiões costeiras como se fossem cocos. Esses tráficos foram bem organizados, como ampla participação de uma parcela das elites dominantes africanas. Havia rotas de trafico de escravos organizadas, rotas tradicionais e históricas: através do Saara, pela parte Ocidental; através do eixo Kanen-Bornou e o Cairo (Egito); através do eixo Cairo-Sudão; e, logo através do eixo da ilha de Zanzibar e de Oman, diretamente ate a Arábia. Quando os árabes finalmente se apoderaram da Península Ibérica, no inicio do século VIII, deu-se inicio a outro eixo pelo qual escoava a população servil africana diretamente do Sudão Ocidental ate a Península Ibérica (Espanha e Portugal), a partir África do Norte. Assim, existia uma numerosa população negra e escravizada na Espanha e em Portugal séculos antes do nascimento de Cristóvão Colombo.

Durante todo o período de domínio árabe na Península Ibérica, isto é, ao longo de quase 800 anos, foram levados para essa região algo em torno de quatro milhões de africanos, segundo as estimativas do pesquisador francês Raymond Mauny (1961). Se somarmos os tráficos árabes entre os séculos VIII e XVI (possivelmente 18-20 milhões de africanos) ao trafico europeu a partir do século XVI (possivelmente 12-15 milhões de africanos), vemos que se tratou de um desmedido contingente de pessoas negociadas, vendidas, compradas, revendidas e, afinal, escravizadas em praticamente doso os países do Oriente Médio, da Ásia Meridional e da Europa, do decurso de um milênio. A África, então, converteu-se em palco de exportação de mão-de-obra escravizada.

Essa é a calamitosa realidade que começa a aflorar das crescentes pesquisas realizadas pelos diversos investigadores que se debruçam sobre esses tráficos. Sem duvida, é complicado projetar cifras exatas, considerando todas as variáveis que talvez nunca poderão convergir, devido à ausência de estatísticas para esses períodos longínquos. Mas, o importante é que essas estimativas dão uma idéia da amplitude do desastre que assolou o continente africano por mais de um milênio e de maneira continua.

Essa situação implicou atores externos com atores internos. Estes últimos articulam um tipo de comercio com o exterior, que lesou os interesses dos povos africanos; ou seja, houve toda uma historia de colaboração política e comercial de certas elites locais (comerciantes e governantes) com o exterior. Essa imbricação se dava mesmo numa situação que não era vantajosa para a África, mas sim, de certo modo, para aquelas elites que obtinham lucro desse tráfico.

Vista desde esta ótica, a identidade histórica das elites vassalas africanas, que hoje ocupam o cenário político, é complicada e problemática, pois deriva de todo o processo multissecular anterior. Embora não seja possível estabelecer uma linha direta que perpasse todas as épocas, culturas e sociedades, podemos inferir que os tráficos negreiros afro-árabes influíram na maneira em que se constituíram as classes dirigentes africanas que, a partir do século XVIII, serviriam de base para a colonização européia e, inclusive, para a situação neocolonial atual. Afinal, uma grande parte das classes dirigentes pré-coloniais comandava Estados, pois a mercadoria humana era uma forma de comercio que tinha se estabelecido entre a África e a Europa, bem como entre a África e o Oriente Médio.

Não iremos adentrar profundamente esse assunto muito complexo, que se constitui um caos para os povos africanos e sobre o qual os historiadores ainda se debruçam. Na realidade, quando se observa o que a Europa estava vendendo para a África e o que a África estava vendendo para a Europa, não se encontra a mínima correspondência. O resultado foi que essa troca desigual garantiu aquilo que Walter Rodney chamou corretamente de "o subdesenvolvimento do continente africano".

Está nítido que foi uma troca desigual, pois, por seu intermédio, a África estava exportando suas forcas vivas e, portanto, subdesenvolvendo-se em relação aas outras regiões do mundo. O capital mais precioso de uma nação e, sem duvida, sua população jovem, sua população criativa, sua população fisicamente sã. E o que recebia o continente africano com exportação de suas forcas vivas? Recebia pura quinquilharia, produtos de consumo produzidos a baixo custo no Oriente Médio ou na Europa, bebidas alcoólicas, bíblias e, claro, cada vez mais... doutrinários do Islã ou missionários.

O que a indústria africana produzia nesses séculos não interessava aos europeus. A África estava produzindo o que os europeus já não precisavam. A indústria de algodão africano, assim como seus tecidos, não era competitiva em relação à indústria de tecidos que os europeus podiam obter da própria Ásia, da Índia e das outras colônias que conquistavam àquela época.

Isso equivale a dizer que toda uma mentalidade de troca desigual, toda uma mentalidade de intercambio que não beneficiava o continente africano e, em vez disso, fundamentalmente, favorecia as "elites exportadoras de gente", tinha fortes raízes fixadas nas realidades do continente bem antes da colonização européia. Ha toda uma mentalidade que se criou nesse continente, produto daquelas elites abastadas que dirigiam os destinos das diferentes nações e que viram no trafico de escravos uma oportunidade de lucrar e acumular riqueza. Na realidade, tratou-se de uma riqueza improdutiva na medida em que nem servia para criar um processo acumulativo baseado em re-investimentos: os produtos que a Europa exportava para seus "parceiros" africanos careciam do menor valor-capital.

Foram essas as condições que contribuíram, ontem, para a queda desse continente e que determinaram a hegemonia mundial, primeiro a do Oriente Médio e, depois, a da Europa. A responsabilidade das elites vassalas africanas pré-coloniais na problemática dos "tráficos negreiros" foi decisiva. Esse fato não pode ser ignorado, negado ou minimizado. Não encarar esse assunto é deixar o caminho livre para que os historiadores revisionistas (THORNTON, John. A África e os Africanos na formação do mundo atlântico. Rio de Janeiro, Campus, 2004) - verdadeiros porta-vozes da manutenção do sistema mundial imperante e da hegemonia do chamado Primeiro Mundo - encham as bibliotecas com obras que minimizam e desculpam o crime contra a humanidade que constituíram esses tráficos e a própria escravidão racial dos povos negros.

Estamos obrigados a encarar esse assunto porque, hoje, somos nós testemunhas do protagonismo das mesmas elites compradoras na sua relação como exterior. Elas entregam ao exterior, com uma tranqüilidade criminal impressionante - e a baixo preço - as matérias-primas do subsolo africano, tal como outrora entregaram, e por pouca coisa, a mão-de-obra africana que foi escravizada no Oriente Médio (Arábia, Iêmen, Síria, Iraque, Turquia, Ira, Afeganistão), no sul do continente asiático (Índia, Paquistão, Sri Lanka) e nas Américas (do Sul, Caribe e do Norte). Assim, as elites neocoloniais contemporâneas simbolizam, de maneira concreta, a continuidade das relações exteriores desiguais, em detrimento total do continente africano, que tem causado tamanho dano aos povos dessa região do mundo.

Temos de voltar o olhar para essas circunstancias históricas a fim de reconhecer os caminhos pelos quais se perpetua essa relação comercial desigual. Do mesmo modo, devemos nos atentar para a identificação da continuidade da própria mentalidade surgida de praticas baseadas nessa troca desigual, comprometida com interesses exógenos e a despeito dos interesses dos próprios povos africanos. Dito de modo direto: tanto política como ideologicamente, a estirpe constituída pelas atuais elites subservientes africanas, representa um elemento de franca continuidade com aquelas praticas comerciais nocivas e desumanas que vigoraram durante o período pré-colonial.

Não seria historicamente verídico argüir que todas as sociedades africanas, ou mesmo todas as classes sociais que compunham as elites dominantes em cada sociedade, se envolveram com os tráficos negreiros. Haveria que analisar cada caso, segundo as épocas e situações, e também segundo o grau de envolvimento com o comercio extracontinental. Mesmo assim, como apontado anteriormente, o envolvimento nos tráficos negreiros baseava-se em realidades sociais intrínsecas à experiência das sociedades humanas como um todo. Essas realidades orientam, que, a partir do momento em que a vida em sociedade permite a certas camadas sociais exercer relações de exploração, o ser humano se lança na busca do lucro a qualquer custo. Foi o caso de muitas das elites africanas pré-coloniais dos períodos Neoclássico e, sobretudo, Ressurgente, que cada vez articulam parcerias nocivas para seus povos com atores imperialistas do exterior, os quais, até mesmo, tinham o maio desprezo social para com seus próprios sócios africanos.

--------------------

Neoclássico e Ressurgente: "Atentos à longa continuidade na ocupação humana do solo africano (três milhões de anos para cá), parece-nos apropriado periodicizar a historiografia africana nos últimos dez milênios segundo cinco grandes períodos, respectivamente denominados como Clássico (5000 a.C., - 200 d.C.), Neoclássico (200 - 1500), Ressurgente (1500 - 1870), Colonial (1870 - 1960) e Contemporâneo (1960 - aos dias atuais).

-------------

MOORE, Carlos. A ÁFRICA QUE INCOMODA: sobre a problematizaçao do legado africano no quotidiano brasileiro. Belo Horizonte: Nandyala, 2008 (Coleção Repensando a África, volume 1). 224 p. PP 12-24.

"Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro" (Is 45:22a)